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Mostrando postagens de 2026

O mito do funcionário multitask

 Há alguns anos, durante uma entrevista informal de emprego, ouvi um gestor dizer com entusiasmo quase admirável: “Estamos procurando alguém multitarefa.” Na época, sorri educadamente como todo adulto socialmente funcional faz em situações corporativas confusas. Mas, por dentro, pensei: “Interessante… então vocês querem contratar uma pessoa ou um polvo emocionalmente resiliente?” Desde então, passei a observar como o mercado desenvolveu verdadeira obsessão pela ideia de produtividade simultânea. O profissional ideal contemporâneo aparentemente precisa: responder mensagens; participar de reunião; preencher planilhas; resolver problemas; atender clientes; ter criatividade; equilíbrio emocional; proatividade; e, se possível, sorrir enquanto tudo acontece ao mesmo tempo. Existe quase uma fantasia corporativa de que seres humanos funcionam melhor permanentemente divididos em vinte abas mentais simultâneas — como navegadores de internet emocionalmente instáveis. O curioso é que a multita...

A falsa modernidade das empresas “descoladas”

Há algum tempo, visitei uma empresa que fazia questão de parecer moderna. E quando digo “fazia questão”, quero dizer que praticamente tudo ali parecia cuidadosamente planejado para transmitir a sensação de inovação disruptiva de última geração — expressão que, aliás, ninguém sabia exatamente o que significava, mas todos repetiam com impressionante convicção. Logo na entrada havia um puff colorido. Na parede, frases motivacionais em inglês. A copa tinha café gourmet. O escritório possuía videogame. E existia até uma mesa de pingue-pongue estrategicamente posicionada perto da recepção, provavelmente para que qualquer visitante concluísse imediatamente: “uau… aqui as pessoas certamente são felizes.” Confesso que sempre acho curioso quando empresas tentam compensar sofrimento organizacional com decoração industrial e luminária pendente. O mais interessante aconteceu alguns minutos depois. Enquanto aguardava uma reunião, comecei a observar discretamente o ambiente. Apesar de toda ...

A palestra sobre saúde mental que aconteceu no horário do almoço

 Há algum tempo, fui convidado para participar de uma atividade sobre saúde mental numa instituição. O tema era excelente. O cartaz era bonito. As palavras utilizadas eram modernas: “bem-estar emocional”, “qualidade de vida”, “cuidado com as pessoas”, “humanização organizacional”. Tudo parecia muito promissor. Até que descobri um detalhe curioso: a palestra aconteceria no horário do almoço. Sem almoço. Confesso que precisei de alguns segundos para processar a ironia da situação. As pessoas trabalhariam a manhã inteira, abririam mão do próprio intervalo de descanso e assistiriam a uma palestra explicando justamente a importância do equilíbrio emocional no ambiente profissional. O mundo corporativo contemporâneo possui dessas coisas. Às vezes ele produz situações tão contraditórias que parecem escritas por roteiristas especializados em humor constrangedor. O mais curioso é que ninguém parecia achar aquilo estranho. Pelo contrário. Havia um entusiasmo institucional g...

A geração Z e os novos conflitos no ambiente corporativo

 Recentemente, ouvi um gestor reclamar da chamada geração Z com um nível de dramaticidade que faria qualquer conflito geracional parecer episódio especial de documentário histórico. Ele dizia: “Essa geração não quer trabalhar.” A frase foi dita enquanto ele tentava descobrir como compartilhar a tela numa reunião online iniciada com vinte minutos de atraso porque ninguém sabia desmutar o microfone. Achei melhor permanecer em silêncio. Existe um esporte muito praticado no mundo corporativo contemporâneo: culpar a geração mais nova por mudanças que o próprio mercado ajudou a produzir. A geração Z tornou-se quase personagem folclórico das empresas. Segundo algumas narrativas corporativas, são jovens: “sem resiliência”, “ansiosos”, “imediatistas”, “difíceis de liderar”, e perigosamente interessados em ter vida pessoal. O que, aparentemente, ainda choca determinados ambientes organizacionais. Confesso que observo esse debate com certo fascínio sociológico. Porque toda gera...

A Fundacentro: a instituição que o Brasil criou e que poucos conhecem

 Existe uma categoria especial de instituições que eu chamo, sem nenhuma ironia pejorativa, de instituições invisíveis. São aquelas que funcionam, que produzem resultados concretos, que existem há décadas cumprindo um papel que ninguém mais está disposto a cumprir, e que a esmagadora maioria da população jamais ouviu mencionar. A Fundacentro é uma delas. Seu nome completo é Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho. Um nome longo, formal e pouco memorável, o que talvez explique parte do seu anonimato. Mas por trás dessa designação institucional extensa vive uma das experiências mais sérias que o Brasil já tentou no campo da proteção ao trabalhador: a ideia de que segurança do trabalho precisa de ciência. Não apenas de normas, não apenas de fiscalização, mas de pesquisa sistemática, de produção de conhecimento, de gente dedicada a entender como o ambiente de trabalho afeta o corpo e a mente de quem nele passa a maior parte da vida acordada. A Fundacentro n...

A romantização do empreendedorismo nas redes sociais

Outro dia, enquanto navegava pelas redes sociais, encontrei um vídeo de um jovem empresário dizendo algo mais ou menos assim: “Enquanto eles dormem, eu trabalho.” A frase vinha acompanhada de uma música épica, imagens em câmera lenta, um notebook aberto numa cafeteria minimalista e, claro, um copo de café estrategicamente posicionado ao lado do computador — porque aparentemente nenhum empreendedor contemporâneo pode existir sem café artesanal e iluminação amarelada. Confesso que ri sozinho. Não pelo rapaz especificamente, mas porque o mundo corporativo contemporâneo transformou o empreendedorismo quase numa estética religiosa. Hoje, empreender não significa apenas abrir um negócio. Significa construir uma narrativa. Existe toda uma dramaturgia digital do sucesso: acordar às 5h da manhã; fazer academia antes do sol nascer; ler três livros por semana; participar de mentorias; ouvir podcasts sobre performance; e postar frases motivacionais como se a vida fosse uma mistura per...

A ABNT e a ISO: padronização técnica como instrumento de proteção social, muito além do produto

 Existe uma cena doméstica que já aconteceu, de alguma forma, na vida de quase todo mundo. Você compra um produto, abre a embalagem, e em algum canto discreto da caixa está impresso um conjunto de letras e números que ninguém lê com atenção. ABNT NBR não sei o quê. ISO não sei quantos. Um carimbo invisível que existe ali, ocupando espaço, sem que a maioria das pessoas saiba exatamente o que significa ou por que deveria se importar. A verdade é que esse carimbo tem uma história. E essa história é mais interessante do que parece à primeira vista. A Associação Brasileira de Normas Técnicas, a ABNT, foi fundada em 1940. Sete anos depois, em 1947, nasceu a International Organization for Standardization, a ISO, com a missão de criar padrões que pudessem ser reconhecidos e aplicados em diferentes países, diferentes indústrias, diferentes contextos culturais e econômicos. O Brasil se tornou membro fundador da ISO. E a ABNT passou a ser a sua representante oficial no país. A questão que rar...

A gestão do medo como ferramenta de controle organizacional

 Ao longo da minha trajetória profissional e acadêmica, conheci gestores extremamente diferentes entre si. Alguns lideravam pelo exemplo. Outros pela técnica. Alguns pela escuta. Outros pela autoridade. Mas houve um tipo específico de liderança que sempre me chamou atenção: a liderança baseada no medo. Curiosamente, ela nem sempre se apresenta de forma explícita. Nem todo gestor autoritário grita. Nem toda violência organizacional é escandalosa. Às vezes, ela aparece em pequenos gestos cotidianos. O silêncio constrangedor diante de um erro. A ironia disfarçada de brincadeira. O excesso de vigilância. A ameaça velada de substituição. O clima permanente de insegurança. Em muitos ambientes organizacionais, o medo não é acidente. É método. Lembro de uma conversa que tive certa vez com um rapaz que trabalhava numa empresa bastante conhecida aqui no Ceará. Ele era competente, educado e claramente comprometido com o trabalho. Ainda assim, parecia constantemente ansioso. ...

Trabalho e cidadania: o que une a Sociologia, o Direito e a Segurança do Trabalho na formação do Estado Social brasileiro

 Certa vez, num intervalo de aula, um aluno me perguntou algo que parecia simples e que não era. Ele havia acabado de ler sobre as Normas Regulamentadoras, estava com a cabeça cheia de siglas, portarias e graus de risco, e me olhou com aquela expressão de quem já decorou o suficiente para passar na prova, mas ainda não entendeu para que serve aquilo tudo na vida real. A pergunta foi mais ou menos assim: professor, por que o Estado se importa com o trabalhador? Fiquei um instante em silêncio. Não porque não soubesse responder. Mas porque percebi que a resposta verdadeira não cabia numa única disciplina. Ela precisava de Sociologia, de Direito, de um pouco de Filosofia política e de uma boa dose de honestidade sobre como as sociedades realmente funcionam. O Estado não se importa com o trabalhador por bondade. O Estado se importa com o trabalhador porque o trabalhador é o Estado. É ele quem paga impostos, quem consome, quem produz a riqueza que sustenta as instituições, quem vota, que...

XXXVII

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Hoje completo 37 anos. E, olhando para trás, percebo que a vida foi bem menos sobre encontrar respostas e muito mais sobre aprender a conviver com perguntas. Quando era mais novo, imaginava que amadurecer significava alcançar algum tipo de certeza. Achava que em determinado momento eu saberia exatamente quem sou, para onde vou e o que esperar do caminho. Mas o tempo, esse professor paciente e às vezes implacável, me ensinou outra coisa: a vida raramente entrega mapas completos. Ela oferece bússolas. E, muitas vezes, nem isso. Ao longo desses anos, fui descobrindo que sou feito de travessias. Algumas planejadas. Outras completamente inesperadas. Algumas leves como uma maré tranquila. Outras parecidas com tempestades capazes de mudar o rumo de tudo. Já perdi pessoas que imaginei que permaneceriam para sempre. Já encontrei afetos onde não procurava. Já vi sonhos nascerem, mudarem de forma e, em alguns casos, desaparecerem para dar espaço a outros que eu sequer imaginava possíveis. Durante...

Home office e solidão: os novos dilemas da gestão contemporânea

Durante a pandemia, ouvi muitas pessoas dizendo que o home office representava finalmente a liberdade profissional que elas sempre desejaram. Não enfrentar trânsito. Não acordar tão cedo. Não lidar diariamente com ambientes organizacionais desgastantes. Não precisar vestir uma “persona corporativa” todos os dias. De fato, no início, aquilo parecia quase revolucionário. Lembro de uma amiga que trabalhava numa grande empresa de tecnologia. Nos primeiros meses de trabalho remoto, ela descrevia a experiência com entusiasmo: “Agora eu consigo almoçar em casa, ouvir música enquanto trabalho e organizar melhor meu tempo.” Meses depois, numa conversa casual, ela comentou algo diferente: “Tem dia que eu percebo que fiquei o dia inteiro sem olhar nos olhos de ninguém.” A frase ficou comigo. Porque talvez o home office tenha revelado algo importante sobre o ser humano contemporâneo: nós reclamávamos profundamente da convivência organizacional, mas não estávamos preparados para o isolam...

CLT: uma lei importada ou reinventada? A trajetória da Consolidação das Leis do Trabalho entre a Europa e o Brasil getulista

 Toda vez que alguém menciona a CLT numa roda de conversa, alguma coisa acontece no ar. Os rostos mudam. Quem é empregado tende a cruzar os braços num gesto que mistura defesa e orgulho. Quem é empregador suspira com uma paciência levemente encenada. Quem é advogado começa a formular uma resposta que nunca vai ser simples o suficiente para o ambiente. A Consolidação das Leis do Trabalho é, provavelmente, o documento jurídico mais discutido, mais xingado e mais invocado da história brasileira. E também um dos menos compreendidos na sua origem. Porque a CLT não nasceu do nada. E não nasceu, como muitos imaginam, de um gesto de generosidade do Estado em direção ao trabalhador. Ela nasceu de uma encruzilhada política muito particular, num momento em que o Brasil tentava, ao mesmo tempo, se industrializar, se modernizar e evitar que a agitação operária que varria a Europa chegasse aqui com a mesma força. Getúlio Vargas assinou o Decreto-Lei nº 5.452 em 1º de maio de 1943. A data escolhi...

O LinkedIn e o grande teatro da felicidade corporativa

Existe algo fascinante e levemente assustador no LinkedIn. Nenhuma outra rede social consegue reunir simultaneamente tanta motivação, tanto entusiasmo profissional e tanta gente emocionalmente cansada tentando parecer plenamente realizada numa terça-feira às 7h da manhã. Às vezes entro no LinkedIn apenas por curiosidade sociológica. Em poucos minutos encontro: um CEO dizendo que fracassou três vezes antes dos 25 anos e hoje lidera uma multinacional; alguém afirmando que acordar às 4h30 mudou completamente sua mentalidade; uma publicação emocionante sobre liderança humanizada escrita por uma empresa conhecida justamente por responder e-mails à meia-noite; e algum “guru corporativo” explicando como transformar ansiedade em vantagem competitiva — frase que, sinceramente, parece saída diretamente de um episódio distópico de ficção científica. O LinkedIn talvez seja o ambiente digital onde o ser humano mais cuidadosamente administra a própria imagem. Ali, todos parecem constantemen...

O excesso de reuniões improdutivas e a falsa sensação de produtividade

 Há alguns anos, participei de uma reunião que durou quase três horas. Lembro perfeitamente da sala climatizada, do café morno em copos descartáveis e da quantidade impressionante de pessoas tentando parecer ocupadas. Havia gráficos, apresentações coloridas, palavras sofisticadas em inglês corporativo e uma sequência interminável de opiniões que, no fim das contas, não levaram a lugar algum. Quando a reunião terminou, um dos participantes olhou para mim e disse: “Hoje o dia foi puxado.” Achei curioso. Porque, objetivamente, quase nada havia sido produzido. Naquele dia, comecei a perceber algo que se repetiria muitas vezes ao longo da minha experiência profissional e acadêmica: muitas organizações confundem movimentação com produtividade. Existe uma estética da produtividade nas empresas contemporâneas. Pessoas caminhando apressadas pelos corredores. Agendas lotadas. Notificações incessantes. Chamadas de vídeo sucessivas. Reuniões sobre reuniões. Relatórios que poucos l...

De 1919 a 1991: uma linha do tempo comentada da legislação de acidentes de trabalho no Brasil

 Existe um exercício que gosto de propor quando falo sobre legislação e segurança do trabalho. Peço que a pessoa imagine um mapa. Não um mapa geográfico, mas um mapa de dores. Cada ponto marcado nesse mapa seria um acidente, uma doença, uma morte que aconteceu no ambiente de trabalho e que, a partir dela, forçou o Estado a reagir com alguma norma, algum decreto, alguma lei. O mapa ficaria muito cheio. E isso diria mais sobre a nossa história do que qualquer manual jurídico. A legislação brasileira sobre acidentes de trabalho não foi construída por iluminação súbita de legisladores sensíveis. Foi construída sob pressão. Sob o peso acumulado de corpos que não voltavam para casa inteiros, de famílias que ficavam sem sustento, de trabalhadores que descobriam, da pior maneira possível, que o risco era deles e o lucro era de outro. Percorrer essa linha do tempo não é um exercício acadêmico. É um exercício de memória. E memória, no campo dos direitos, é o único antídoto confiável contra o...