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Mostrando postagens com o rótulo Administração

O mito do funcionário multitask

 Há alguns anos, durante uma entrevista informal de emprego, ouvi um gestor dizer com entusiasmo quase admirável: “Estamos procurando alguém multitarefa.” Na época, sorri educadamente como todo adulto socialmente funcional faz em situações corporativas confusas. Mas, por dentro, pensei: “Interessante… então vocês querem contratar uma pessoa ou um polvo emocionalmente resiliente?” Desde então, passei a observar como o mercado desenvolveu verdadeira obsessão pela ideia de produtividade simultânea. O profissional ideal contemporâneo aparentemente precisa: responder mensagens; participar de reunião; preencher planilhas; resolver problemas; atender clientes; ter criatividade; equilíbrio emocional; proatividade; e, se possível, sorrir enquanto tudo acontece ao mesmo tempo. Existe quase uma fantasia corporativa de que seres humanos funcionam melhor permanentemente divididos em vinte abas mentais simultâneas — como navegadores de internet emocionalmente instáveis. O curioso é que a multita...

A falsa modernidade das empresas “descoladas”

Há algum tempo, visitei uma empresa que fazia questão de parecer moderna. E quando digo “fazia questão”, quero dizer que praticamente tudo ali parecia cuidadosamente planejado para transmitir a sensação de inovação disruptiva de última geração — expressão que, aliás, ninguém sabia exatamente o que significava, mas todos repetiam com impressionante convicção. Logo na entrada havia um puff colorido. Na parede, frases motivacionais em inglês. A copa tinha café gourmet. O escritório possuía videogame. E existia até uma mesa de pingue-pongue estrategicamente posicionada perto da recepção, provavelmente para que qualquer visitante concluísse imediatamente: “uau… aqui as pessoas certamente são felizes.” Confesso que sempre acho curioso quando empresas tentam compensar sofrimento organizacional com decoração industrial e luminária pendente. O mais interessante aconteceu alguns minutos depois. Enquanto aguardava uma reunião, comecei a observar discretamente o ambiente. Apesar de toda ...

A palestra sobre saúde mental que aconteceu no horário do almoço

 Há algum tempo, fui convidado para participar de uma atividade sobre saúde mental numa instituição. O tema era excelente. O cartaz era bonito. As palavras utilizadas eram modernas: “bem-estar emocional”, “qualidade de vida”, “cuidado com as pessoas”, “humanização organizacional”. Tudo parecia muito promissor. Até que descobri um detalhe curioso: a palestra aconteceria no horário do almoço. Sem almoço. Confesso que precisei de alguns segundos para processar a ironia da situação. As pessoas trabalhariam a manhã inteira, abririam mão do próprio intervalo de descanso e assistiriam a uma palestra explicando justamente a importância do equilíbrio emocional no ambiente profissional. O mundo corporativo contemporâneo possui dessas coisas. Às vezes ele produz situações tão contraditórias que parecem escritas por roteiristas especializados em humor constrangedor. O mais curioso é que ninguém parecia achar aquilo estranho. Pelo contrário. Havia um entusiasmo institucional g...

A geração Z e os novos conflitos no ambiente corporativo

 Recentemente, ouvi um gestor reclamar da chamada geração Z com um nível de dramaticidade que faria qualquer conflito geracional parecer episódio especial de documentário histórico. Ele dizia: “Essa geração não quer trabalhar.” A frase foi dita enquanto ele tentava descobrir como compartilhar a tela numa reunião online iniciada com vinte minutos de atraso porque ninguém sabia desmutar o microfone. Achei melhor permanecer em silêncio. Existe um esporte muito praticado no mundo corporativo contemporâneo: culpar a geração mais nova por mudanças que o próprio mercado ajudou a produzir. A geração Z tornou-se quase personagem folclórico das empresas. Segundo algumas narrativas corporativas, são jovens: “sem resiliência”, “ansiosos”, “imediatistas”, “difíceis de liderar”, e perigosamente interessados em ter vida pessoal. O que, aparentemente, ainda choca determinados ambientes organizacionais. Confesso que observo esse debate com certo fascínio sociológico. Porque toda gera...

A romantização do empreendedorismo nas redes sociais

Outro dia, enquanto navegava pelas redes sociais, encontrei um vídeo de um jovem empresário dizendo algo mais ou menos assim: “Enquanto eles dormem, eu trabalho.” A frase vinha acompanhada de uma música épica, imagens em câmera lenta, um notebook aberto numa cafeteria minimalista e, claro, um copo de café estrategicamente posicionado ao lado do computador — porque aparentemente nenhum empreendedor contemporâneo pode existir sem café artesanal e iluminação amarelada. Confesso que ri sozinho. Não pelo rapaz especificamente, mas porque o mundo corporativo contemporâneo transformou o empreendedorismo quase numa estética religiosa. Hoje, empreender não significa apenas abrir um negócio. Significa construir uma narrativa. Existe toda uma dramaturgia digital do sucesso: acordar às 5h da manhã; fazer academia antes do sol nascer; ler três livros por semana; participar de mentorias; ouvir podcasts sobre performance; e postar frases motivacionais como se a vida fosse uma mistura per...

A gestão do medo como ferramenta de controle organizacional

 Ao longo da minha trajetória profissional e acadêmica, conheci gestores extremamente diferentes entre si. Alguns lideravam pelo exemplo. Outros pela técnica. Alguns pela escuta. Outros pela autoridade. Mas houve um tipo específico de liderança que sempre me chamou atenção: a liderança baseada no medo. Curiosamente, ela nem sempre se apresenta de forma explícita. Nem todo gestor autoritário grita. Nem toda violência organizacional é escandalosa. Às vezes, ela aparece em pequenos gestos cotidianos. O silêncio constrangedor diante de um erro. A ironia disfarçada de brincadeira. O excesso de vigilância. A ameaça velada de substituição. O clima permanente de insegurança. Em muitos ambientes organizacionais, o medo não é acidente. É método. Lembro de uma conversa que tive certa vez com um rapaz que trabalhava numa empresa bastante conhecida aqui no Ceará. Ele era competente, educado e claramente comprometido com o trabalho. Ainda assim, parecia constantemente ansioso. ...

Home office e solidão: os novos dilemas da gestão contemporânea

Durante a pandemia, ouvi muitas pessoas dizendo que o home office representava finalmente a liberdade profissional que elas sempre desejaram. Não enfrentar trânsito. Não acordar tão cedo. Não lidar diariamente com ambientes organizacionais desgastantes. Não precisar vestir uma “persona corporativa” todos os dias. De fato, no início, aquilo parecia quase revolucionário. Lembro de uma amiga que trabalhava numa grande empresa de tecnologia. Nos primeiros meses de trabalho remoto, ela descrevia a experiência com entusiasmo: “Agora eu consigo almoçar em casa, ouvir música enquanto trabalho e organizar melhor meu tempo.” Meses depois, numa conversa casual, ela comentou algo diferente: “Tem dia que eu percebo que fiquei o dia inteiro sem olhar nos olhos de ninguém.” A frase ficou comigo. Porque talvez o home office tenha revelado algo importante sobre o ser humano contemporâneo: nós reclamávamos profundamente da convivência organizacional, mas não estávamos preparados para o isolam...

O LinkedIn e o grande teatro da felicidade corporativa

Existe algo fascinante e levemente assustador no LinkedIn. Nenhuma outra rede social consegue reunir simultaneamente tanta motivação, tanto entusiasmo profissional e tanta gente emocionalmente cansada tentando parecer plenamente realizada numa terça-feira às 7h da manhã. Às vezes entro no LinkedIn apenas por curiosidade sociológica. Em poucos minutos encontro: um CEO dizendo que fracassou três vezes antes dos 25 anos e hoje lidera uma multinacional; alguém afirmando que acordar às 4h30 mudou completamente sua mentalidade; uma publicação emocionante sobre liderança humanizada escrita por uma empresa conhecida justamente por responder e-mails à meia-noite; e algum “guru corporativo” explicando como transformar ansiedade em vantagem competitiva — frase que, sinceramente, parece saída diretamente de um episódio distópico de ficção científica. O LinkedIn talvez seja o ambiente digital onde o ser humano mais cuidadosamente administra a própria imagem. Ali, todos parecem constantemen...

O excesso de reuniões improdutivas e a falsa sensação de produtividade

 Há alguns anos, participei de uma reunião que durou quase três horas. Lembro perfeitamente da sala climatizada, do café morno em copos descartáveis e da quantidade impressionante de pessoas tentando parecer ocupadas. Havia gráficos, apresentações coloridas, palavras sofisticadas em inglês corporativo e uma sequência interminável de opiniões que, no fim das contas, não levaram a lugar algum. Quando a reunião terminou, um dos participantes olhou para mim e disse: “Hoje o dia foi puxado.” Achei curioso. Porque, objetivamente, quase nada havia sido produzido. Naquele dia, comecei a perceber algo que se repetiria muitas vezes ao longo da minha experiência profissional e acadêmica: muitas organizações confundem movimentação com produtividade. Existe uma estética da produtividade nas empresas contemporâneas. Pessoas caminhando apressadas pelos corredores. Agendas lotadas. Notificações incessantes. Chamadas de vídeo sucessivas. Reuniões sobre reuniões. Relatórios que poucos l...

Inteligência emocional nas empresas: necessidade real ou discurso corporativo?

 Poucos conceitos tornaram-se tão populares no universo corporativo contemporâneo quanto a chamada “inteligência emocional”. Empresas falam sobre ela em treinamentos, palestras, processos seletivos, reuniões estratégicas e programas de liderança. O mercado passou a exigir profissionais emocionalmente equilibrados, resilientes, adaptáveis e capazes de lidar adequadamente com pressão, conflitos e mudanças constantes. À primeira vista, parece uma evolução positiva. Durante muito tempo, organizações ignoraram completamente a dimensão emocional do trabalho. O ambiente corporativo tradicional valorizava apenas produtividade, racionalidade e eficiência técnica. Emoções eram vistas quase como obstáculos profissionais. Hoje, ao menos em teoria, reconhece-se que sentimentos influenciam diretamente relações humanas, liderança, comunicação e desempenho organizacional. Mas existe uma questão importante que raramente é discutida com profundidade: As empresas realmente se preocupam com saúd...

A ilusão da meritocracia nas organizações modernas

Existe uma narrativa extremamente sedutora no mundo contemporâneo: a ideia de que esforço individual é suficiente para garantir reconhecimento, crescimento e sucesso profissional. A meritocracia tornou-se uma das grandes promessas simbólicas das organizações modernas. Segundo essa lógica, quem trabalha mais cresce mais. Quem se dedica mais alcança melhores posições. Quem possui competência inevitavelmente será reconhecido. O sucesso seria apenas consequência natural do mérito individual. À primeira vista, essa ideia parece justa. O problema começa quando observamos a realidade concreta das relações humanas dentro das organizações. Porque o mundo corporativo raramente funciona de maneira tão racional quanto os discursos institucionais fazem parecer. As empresas contemporâneas gostam de apresentar-se como espaços neutros, técnicos e objetivos. Contudo, basta observar atentamente qualquer ambiente organizacional para perceber que fatores subjetivos influenciam profundamente os proce...

O ambiente de trabalho adoecido: reflexões psicanalíticas sobre sofrimento organizacional

 Existe um sofrimento silencioso atravessando os ambientes de trabalho contemporâneos. Ele raramente aparece nos relatórios corporativos, dificilmente surge nas reuniões estratégicas e quase nunca é tratado como prioridade institucional. Ainda assim, está presente em corredores empresariais, salas administrativas, escritórios, escolas, hospitais, repartições públicas e até mesmo nos espaços aparentemente “modernos” das organizações contemporâneas. O sofrimento psíquico tornou-se parte da rotina profissional. Talvez um dos maiores paradoxos da sociedade atual seja justamente este: nunca tivemos tantas ferramentas de produtividade e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão emocionalmente esgotados. A lógica contemporânea do trabalho transformou a produtividade em valor moral. Não basta mais trabalhar. É preciso performar. Demonstrar alta performance constantemente. Mostrar entusiasmo permanente. Ser resiliente o tempo inteiro. Adaptar-se rapidamente. Produzir mais. Entregar mais. Su...

A Administração como Ciência Humana: por que gerir pessoas é mais complexo do que gerir processos

Existe uma ilusão silenciosa que atravessa grande parte do imaginário corporativo contemporâneo: a crença de que administrar significa apenas controlar números, organizar tarefas, cumprir metas e otimizar resultados. Como se as organizações fossem máquinas perfeitamente programáveis e os indivíduos apenas peças substituíveis de uma engrenagem produtiva. Talvez esse seja um dos maiores equívocos da administração moderna. Gerir processos é relativamente simples quando comparado à complexidade de gerir pessoas. Processos obedecem fluxos. Planilhas seguem fórmulas. Sistemas operam mediante comandos previsíveis. Pessoas, não. O ser humano carrega consigo emoções, histórias, frustrações, inseguranças, desejos, medos, traumas, expectativas e conflitos internos que inevitavelmente atravessam o ambiente organizacional. Nenhuma empresa funciona apenas com indicadores; ela funciona, sobretudo, com subjetividades. Durante muito tempo, especialmente após a Revolução Industrial, prevaleceu uma v...

Capital de Giro: A Linha de Vida de Qualquer Pequena Empresa

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Em tempos de instabilidade econômica, muitos empreendedores buscam respostas em cursos, planilhas e consultorias, mas frequentemente ignoram um elemento essencial que, silenciosamente, determina o destino de qualquer negócio: o capital de giro. Ele é o sangue que corre nas veias da empresa. Quando flui bem, tudo funciona. Quando falta, até mesmo um negócio promissor pode desmoronar. Mas afinal, o que é capital de giro? De forma simples, é o conjunto de recursos financeiros disponíveis para sustentar o funcionamento cotidiano da empresa. É o dinheiro que mantém o negócio vivo enquanto o lucro ainda está a caminho. Em outras palavras, é aquilo que paga as contas do dia a dia – salários, aluguel, fornecedores, impostos e pequenas despesas – enquanto as receitas ainda não entraram no caixa. Pense, por exemplo, em uma pequena padaria de bairro. O dono precisa comprar farinha, açúcar, fermento e outros insumos para produzir os pães que serão vendidos. Contudo, a clientela paga ao longo da ...