A romantização do empreendedorismo nas redes sociais

Outro dia, enquanto navegava pelas redes sociais, encontrei um vídeo de um jovem empresário dizendo algo mais ou menos assim:

“Enquanto eles dormem, eu trabalho.”

A frase vinha acompanhada de uma música épica, imagens em câmera lenta, um notebook aberto numa cafeteria minimalista e, claro, um copo de café estrategicamente posicionado ao lado do computador — porque aparentemente nenhum empreendedor contemporâneo pode existir sem café artesanal e iluminação amarelada.

Confesso que ri sozinho.

Não pelo rapaz especificamente, mas porque o mundo corporativo contemporâneo transformou o empreendedorismo quase numa estética religiosa.

Hoje, empreender não significa apenas abrir um negócio.

Significa construir uma narrativa.

Existe toda uma dramaturgia digital do sucesso:
acordar às 5h da manhã;
fazer academia antes do sol nascer;
ler três livros por semana;
participar de mentorias;
ouvir podcasts sobre performance;
e postar frases motivacionais como se a vida fosse uma mistura permanente de LinkedIn com trailer de filme de superação.

O problema é que a realidade costuma ser bem menos cinematográfica.

Ao longo dos anos, conheci muitos pequenos empreendedores. Alguns extremamente talentosos. Outros absolutamente improvisados. Alguns prosperaram. Outros quebraram. A maioria apenas tentava sobreviver economicamente sem transformar aquilo numa epopeia motivacional.

E talvez esteja justamente aí a grande diferença entre a vida real e o empreendedorismo performático das redes sociais.

Na vida concreta, empreender frequentemente significa:
resolver problema no caixa;
lidar com fornecedor;
negociar dívida;
administrar ansiedade;
atender cliente difícil;
e descobrir que abrir empresa não produz automaticamente liberdade financeira nem realização existencial.

Às vezes produz apenas gastrite.

Lembro de um conhecido que abriu uma pequena loja cheio de entusiasmo depois de consumir compulsivamente conteúdos sobre empreendedorismo na internet. Durante meses, ele repetia frases sobre “mentalidade de sucesso”, “mindset vencedor” e “alta performance”.

Seis meses depois, encontrei-o exausto numa fila bancária tentando renegociar contas atrasadas.

Naquele dia ele me disse:
“Engraçado… ninguém posta essa parte no Instagram.”

Achei aquilo profundamente simbólico.

Porque as redes sociais transformaram o empreendedorismo numa vitrine cuidadosamente editada. O fracasso desaparece. O medo desaparece. A insegurança desaparece. Restam apenas fotos de escritórios bonitos, notebooks em aeroportos e discursos sobre independência financeira.

Existe uma pressão silenciosa para parecer bem-sucedido o tempo inteiro.

Até o sofrimento precisa ser “instagramável”.

O curioso é que muitos conteúdos sobre empreendedorismo acabam vendendo uma ideia perigosamente simplificada de sucesso. Como se tudo dependesse apenas de esforço individual, disciplina extrema e pensamento positivo.

Quase nunca se fala sobre contexto econômico.
Sobre desigualdade.
Sobre exaustão emocional.
Sobre privilégio social.
Ou simplesmente sobre azar — porque ele também existe, embora o mundo corporativo odeie admitir isso.

A lógica contemporânea criou uma espécie de culpa empreendedora permanente.

Se você não prospera, provavelmente não se esforçou o suficiente.
Não acordou cedo o bastante.
Não teve “mindset”.
Não saiu da zona de conforto.

O sujeito passa a acreditar que qualquer dificuldade financeira representa fracasso moral.

E isso produz enorme sofrimento psicológico.

A romantização do empreendedorismo também criou outra figura curiosa: o empreendedor que nunca descansa porque transformou o próprio cansaço em identidade profissional.

Ele responde mensagens de madrugada.
Posta foto trabalhando no domingo.
Fala orgulhosamente sobre dormir pouco.
Age como se o esgotamento fosse medalha de honra corporativa.

Existe quase uma competição informal para descobrir quem está mais cansado.

E tudo isso costuma vir acompanhado de frases motivacionais ditas por pessoas emocionalmente à beira de um colapso, mas sempre sorrindo diante da câmera.

O capitalismo contemporâneo possui uma habilidade impressionante: transformar sofrimento em estética aspiracional.

A administração contemporânea fala muito sobre inovação, produtividade e adaptação constante. Mas talvez estejamos produzindo uma geração emocionalmente exausta tentando performar sucesso ininterruptamente nas redes sociais.

Empreender pode ser algo maravilhoso.
Criar projetos possui beleza real.
Construir autonomia profissional também.

Mas talvez seja importante devolver humanidade ao tema.

Nem todo empreendedor está milionário.
Nem todo negócio nasce de uma “grande paixão”.
Nem todo trabalhador deseja transformar hobby em startup.
E nem toda pausa representa fracasso.

Às vezes, a pessoa só está cansada mesmo.

Com o tempo, comecei a admirar mais os empreendedores silenciosos. Aqueles que não transformam a própria rotina em espetáculo motivacional. Pessoas que trabalham honestamente, enfrentam dificuldades reais e entendem que sucesso não precisa parecer um comercial de energia premium.

Talvez maturidade profissional seja justamente isso:
parar de transformar a própria vida numa campanha publicitária corporativa.

Porque, sinceramente, ninguém consegue viver permanentemente como se estivesse dando palestra motivacional para si mesmo.

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