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XXXVII

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Hoje completo 37 anos. E, olhando para trás, percebo que a vida foi bem menos sobre encontrar respostas e muito mais sobre aprender a conviver com perguntas. Quando era mais novo, imaginava que amadurecer significava alcançar algum tipo de certeza. Achava que em determinado momento eu saberia exatamente quem sou, para onde vou e o que esperar do caminho. Mas o tempo, esse professor paciente e às vezes implacável, me ensinou outra coisa: a vida raramente entrega mapas completos. Ela oferece bússolas. E, muitas vezes, nem isso. Ao longo desses anos, fui descobrindo que sou feito de travessias. Algumas planejadas. Outras completamente inesperadas. Algumas leves como uma maré tranquila. Outras parecidas com tempestades capazes de mudar o rumo de tudo. Já perdi pessoas que imaginei que permaneceriam para sempre. Já encontrei afetos onde não procurava. Já vi sonhos nascerem, mudarem de forma e, em alguns casos, desaparecerem para dar espaço a outros que eu sequer imaginava possíveis. Durante...

Home office e solidão: os novos dilemas da gestão contemporânea

Durante a pandemia, ouvi muitas pessoas dizendo que o home office representava finalmente a liberdade profissional que elas sempre desejaram. Não enfrentar trânsito. Não acordar tão cedo. Não lidar diariamente com ambientes organizacionais desgastantes. Não precisar vestir uma “persona corporativa” todos os dias. De fato, no início, aquilo parecia quase revolucionário. Lembro de uma amiga que trabalhava numa grande empresa de tecnologia. Nos primeiros meses de trabalho remoto, ela descrevia a experiência com entusiasmo: “Agora eu consigo almoçar em casa, ouvir música enquanto trabalho e organizar melhor meu tempo.” Meses depois, numa conversa casual, ela comentou algo diferente: “Tem dia que eu percebo que fiquei o dia inteiro sem olhar nos olhos de ninguém.” A frase ficou comigo. Porque talvez o home office tenha revelado algo importante sobre o ser humano contemporâneo: nós reclamávamos profundamente da convivência organizacional, mas não estávamos preparados para o isolam...

CLT: uma lei importada ou reinventada? A trajetória da Consolidação das Leis do Trabalho entre a Europa e o Brasil getulista

 Toda vez que alguém menciona a CLT numa roda de conversa, alguma coisa acontece no ar. Os rostos mudam. Quem é empregado tende a cruzar os braços num gesto que mistura defesa e orgulho. Quem é empregador suspira com uma paciência levemente encenada. Quem é advogado começa a formular uma resposta que nunca vai ser simples o suficiente para o ambiente. A Consolidação das Leis do Trabalho é, provavelmente, o documento jurídico mais discutido, mais xingado e mais invocado da história brasileira. E também um dos menos compreendidos na sua origem. Porque a CLT não nasceu do nada. E não nasceu, como muitos imaginam, de um gesto de generosidade do Estado em direção ao trabalhador. Ela nasceu de uma encruzilhada política muito particular, num momento em que o Brasil tentava, ao mesmo tempo, se industrializar, se modernizar e evitar que a agitação operária que varria a Europa chegasse aqui com a mesma força. Getúlio Vargas assinou o Decreto-Lei nº 5.452 em 1º de maio de 1943. A data escolhi...

O LinkedIn e o grande teatro da felicidade corporativa

Existe algo fascinante e levemente assustador no LinkedIn. Nenhuma outra rede social consegue reunir simultaneamente tanta motivação, tanto entusiasmo profissional e tanta gente emocionalmente cansada tentando parecer plenamente realizada numa terça-feira às 7h da manhã. Às vezes entro no LinkedIn apenas por curiosidade sociológica. Em poucos minutos encontro: um CEO dizendo que fracassou três vezes antes dos 25 anos e hoje lidera uma multinacional; alguém afirmando que acordar às 4h30 mudou completamente sua mentalidade; uma publicação emocionante sobre liderança humanizada escrita por uma empresa conhecida justamente por responder e-mails à meia-noite; e algum “guru corporativo” explicando como transformar ansiedade em vantagem competitiva — frase que, sinceramente, parece saída diretamente de um episódio distópico de ficção científica. O LinkedIn talvez seja o ambiente digital onde o ser humano mais cuidadosamente administra a própria imagem. Ali, todos parecem constantemen...

O excesso de reuniões improdutivas e a falsa sensação de produtividade

 Há alguns anos, participei de uma reunião que durou quase três horas. Lembro perfeitamente da sala climatizada, do café morno em copos descartáveis e da quantidade impressionante de pessoas tentando parecer ocupadas. Havia gráficos, apresentações coloridas, palavras sofisticadas em inglês corporativo e uma sequência interminável de opiniões que, no fim das contas, não levaram a lugar algum. Quando a reunião terminou, um dos participantes olhou para mim e disse: “Hoje o dia foi puxado.” Achei curioso. Porque, objetivamente, quase nada havia sido produzido. Naquele dia, comecei a perceber algo que se repetiria muitas vezes ao longo da minha experiência profissional e acadêmica: muitas organizações confundem movimentação com produtividade. Existe uma estética da produtividade nas empresas contemporâneas. Pessoas caminhando apressadas pelos corredores. Agendas lotadas. Notificações incessantes. Chamadas de vídeo sucessivas. Reuniões sobre reuniões. Relatórios que poucos l...

De 1919 a 1991: uma linha do tempo comentada da legislação de acidentes de trabalho no Brasil

 Existe um exercício que gosto de propor quando falo sobre legislação e segurança do trabalho. Peço que a pessoa imagine um mapa. Não um mapa geográfico, mas um mapa de dores. Cada ponto marcado nesse mapa seria um acidente, uma doença, uma morte que aconteceu no ambiente de trabalho e que, a partir dela, forçou o Estado a reagir com alguma norma, algum decreto, alguma lei. O mapa ficaria muito cheio. E isso diria mais sobre a nossa história do que qualquer manual jurídico. A legislação brasileira sobre acidentes de trabalho não foi construída por iluminação súbita de legisladores sensíveis. Foi construída sob pressão. Sob o peso acumulado de corpos que não voltavam para casa inteiros, de famílias que ficavam sem sustento, de trabalhadores que descobriam, da pior maneira possível, que o risco era deles e o lucro era de outro. Percorrer essa linha do tempo não é um exercício acadêmico. É um exercício de memória. E memória, no campo dos direitos, é o único antídoto confiável contra o...

Inteligência emocional nas empresas: necessidade real ou discurso corporativo?

 Poucos conceitos tornaram-se tão populares no universo corporativo contemporâneo quanto a chamada “inteligência emocional”. Empresas falam sobre ela em treinamentos, palestras, processos seletivos, reuniões estratégicas e programas de liderança. O mercado passou a exigir profissionais emocionalmente equilibrados, resilientes, adaptáveis e capazes de lidar adequadamente com pressão, conflitos e mudanças constantes. À primeira vista, parece uma evolução positiva. Durante muito tempo, organizações ignoraram completamente a dimensão emocional do trabalho. O ambiente corporativo tradicional valorizava apenas produtividade, racionalidade e eficiência técnica. Emoções eram vistas quase como obstáculos profissionais. Hoje, ao menos em teoria, reconhece-se que sentimentos influenciam diretamente relações humanas, liderança, comunicação e desempenho organizacional. Mas existe uma questão importante que raramente é discutida com profundidade: As empresas realmente se preocupam com saúd...