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A Fundacentro: a instituição que o Brasil criou e que poucos conhecem

 Existe uma categoria especial de instituições que eu chamo, sem nenhuma ironia pejorativa, de instituições invisíveis. São aquelas que funcionam, que produzem resultados concretos, que existem há décadas cumprindo um papel que ninguém mais está disposto a cumprir, e que a esmagadora maioria da população jamais ouviu mencionar. A Fundacentro é uma delas. Seu nome completo é Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho. Um nome longo, formal e pouco memorável, o que talvez explique parte do seu anonimato. Mas por trás dessa designação institucional extensa vive uma das experiências mais sérias que o Brasil já tentou no campo da proteção ao trabalhador: a ideia de que segurança do trabalho precisa de ciência. Não apenas de normas, não apenas de fiscalização, mas de pesquisa sistemática, de produção de conhecimento, de gente dedicada a entender como o ambiente de trabalho afeta o corpo e a mente de quem nele passa a maior parte da vida acordada. A Fundacentro n...

A romantização do empreendedorismo nas redes sociais

Outro dia, enquanto navegava pelas redes sociais, encontrei um vídeo de um jovem empresário dizendo algo mais ou menos assim: “Enquanto eles dormem, eu trabalho.” A frase vinha acompanhada de uma música épica, imagens em câmera lenta, um notebook aberto numa cafeteria minimalista e, claro, um copo de café estrategicamente posicionado ao lado do computador — porque aparentemente nenhum empreendedor contemporâneo pode existir sem café artesanal e iluminação amarelada. Confesso que ri sozinho. Não pelo rapaz especificamente, mas porque o mundo corporativo contemporâneo transformou o empreendedorismo quase numa estética religiosa. Hoje, empreender não significa apenas abrir um negócio. Significa construir uma narrativa. Existe toda uma dramaturgia digital do sucesso: acordar às 5h da manhã; fazer academia antes do sol nascer; ler três livros por semana; participar de mentorias; ouvir podcasts sobre performance; e postar frases motivacionais como se a vida fosse uma mistura per...

A ABNT e a ISO: padronização técnica como instrumento de proteção social, muito além do produto

 Existe uma cena doméstica que já aconteceu, de alguma forma, na vida de quase todo mundo. Você compra um produto, abre a embalagem, e em algum canto discreto da caixa está impresso um conjunto de letras e números que ninguém lê com atenção. ABNT NBR não sei o quê. ISO não sei quantos. Um carimbo invisível que existe ali, ocupando espaço, sem que a maioria das pessoas saiba exatamente o que significa ou por que deveria se importar. A verdade é que esse carimbo tem uma história. E essa história é mais interessante do que parece à primeira vista. A Associação Brasileira de Normas Técnicas, a ABNT, foi fundada em 1940. Sete anos depois, em 1947, nasceu a International Organization for Standardization, a ISO, com a missão de criar padrões que pudessem ser reconhecidos e aplicados em diferentes países, diferentes indústrias, diferentes contextos culturais e econômicos. O Brasil se tornou membro fundador da ISO. E a ABNT passou a ser a sua representante oficial no país. A questão que rar...

A gestão do medo como ferramenta de controle organizacional

 Ao longo da minha trajetória profissional e acadêmica, conheci gestores extremamente diferentes entre si. Alguns lideravam pelo exemplo. Outros pela técnica. Alguns pela escuta. Outros pela autoridade. Mas houve um tipo específico de liderança que sempre me chamou atenção: a liderança baseada no medo. Curiosamente, ela nem sempre se apresenta de forma explícita. Nem todo gestor autoritário grita. Nem toda violência organizacional é escandalosa. Às vezes, ela aparece em pequenos gestos cotidianos. O silêncio constrangedor diante de um erro. A ironia disfarçada de brincadeira. O excesso de vigilância. A ameaça velada de substituição. O clima permanente de insegurança. Em muitos ambientes organizacionais, o medo não é acidente. É método. Lembro de uma conversa que tive certa vez com um rapaz que trabalhava numa empresa bastante conhecida aqui no Ceará. Ele era competente, educado e claramente comprometido com o trabalho. Ainda assim, parecia constantemente ansioso. ...

Trabalho e cidadania: o que une a Sociologia, o Direito e a Segurança do Trabalho na formação do Estado Social brasileiro

 Certa vez, num intervalo de aula, um aluno me perguntou algo que parecia simples e que não era. Ele havia acabado de ler sobre as Normas Regulamentadoras, estava com a cabeça cheia de siglas, portarias e graus de risco, e me olhou com aquela expressão de quem já decorou o suficiente para passar na prova, mas ainda não entendeu para que serve aquilo tudo na vida real. A pergunta foi mais ou menos assim: professor, por que o Estado se importa com o trabalhador? Fiquei um instante em silêncio. Não porque não soubesse responder. Mas porque percebi que a resposta verdadeira não cabia numa única disciplina. Ela precisava de Sociologia, de Direito, de um pouco de Filosofia política e de uma boa dose de honestidade sobre como as sociedades realmente funcionam. O Estado não se importa com o trabalhador por bondade. O Estado se importa com o trabalhador porque o trabalhador é o Estado. É ele quem paga impostos, quem consome, quem produz a riqueza que sustenta as instituições, quem vota, que...

XXXVII

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Hoje completo 37 anos. E, olhando para trás, percebo que a vida foi bem menos sobre encontrar respostas e muito mais sobre aprender a conviver com perguntas. Quando era mais novo, imaginava que amadurecer significava alcançar algum tipo de certeza. Achava que em determinado momento eu saberia exatamente quem sou, para onde vou e o que esperar do caminho. Mas o tempo, esse professor paciente e às vezes implacável, me ensinou outra coisa: a vida raramente entrega mapas completos. Ela oferece bússolas. E, muitas vezes, nem isso. Ao longo desses anos, fui descobrindo que sou feito de travessias. Algumas planejadas. Outras completamente inesperadas. Algumas leves como uma maré tranquila. Outras parecidas com tempestades capazes de mudar o rumo de tudo. Já perdi pessoas que imaginei que permaneceriam para sempre. Já encontrei afetos onde não procurava. Já vi sonhos nascerem, mudarem de forma e, em alguns casos, desaparecerem para dar espaço a outros que eu sequer imaginava possíveis. Durante...

Home office e solidão: os novos dilemas da gestão contemporânea

Durante a pandemia, ouvi muitas pessoas dizendo que o home office representava finalmente a liberdade profissional que elas sempre desejaram. Não enfrentar trânsito. Não acordar tão cedo. Não lidar diariamente com ambientes organizacionais desgastantes. Não precisar vestir uma “persona corporativa” todos os dias. De fato, no início, aquilo parecia quase revolucionário. Lembro de uma amiga que trabalhava numa grande empresa de tecnologia. Nos primeiros meses de trabalho remoto, ela descrevia a experiência com entusiasmo: “Agora eu consigo almoçar em casa, ouvir música enquanto trabalho e organizar melhor meu tempo.” Meses depois, numa conversa casual, ela comentou algo diferente: “Tem dia que eu percebo que fiquei o dia inteiro sem olhar nos olhos de ninguém.” A frase ficou comigo. Porque talvez o home office tenha revelado algo importante sobre o ser humano contemporâneo: nós reclamávamos profundamente da convivência organizacional, mas não estávamos preparados para o isolam...