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O papel da comunicação na redução de conflitos organizacionais

 Toda empresa possui pelo menos um grupo de WhatsApp capaz de destruir lentamente a estabilidade emocional de qualquer ser humano. Isso já deveria aparecer em algum manual contemporâneo de administração. Outro dia, um amigo me mostrou mensagens do grupo corporativo da empresa onde trabalha. Eram 22h47 de um domingo e alguém discutia urgentemente a cor de uma planilha que seria apresentada numa reunião na terça-feira. O detalhe mais impressionante não era a discussão. Era o fato de que sete pessoas respondiam aquilo com seriedade absoluta naquele horário. Existe algo profundamente curioso na comunicação organizacional contemporânea: nunca tivemos tantos canais de contato e, ainda assim, tanta dificuldade de comunicação real. As empresas possuem: e-mail; WhatsApp; Teams; Zoom; Meet; Slack; sistemas internos; grupos paralelos; grupos secretos dos grupos oficiais; e provavelmente algum gestor enviando áudio de três minutos dizendo: “É rapidinho.” Quase nunca é rapidin...

Trabalhar para viver? Ou viver para trabalhar? Saúde mental no mundo do trabalho e os riscos psicossociais na NR-1

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 Na manhã de hoje, 10/09/2026 , durante a Semana da Administração da Unidade do Grau Técnico Fortaleza Centro , ministrei uma palestra com o título “Trabalhar para viver? Ou viver para trabalhar? — A saúde mental no mundo do trabalho” . A proposta foi provocar uma reflexão sobre uma relação que atravessa praticamente toda a experiência humana contemporânea: a relação entre o indivíduo e o trabalho. Afinal, por que trabalhamos? O que buscamos quando ingressamos em uma atividade profissional? Quanto da nossa identidade está relacionada ao trabalho que desempenhamos? E, principalmente, o que acontece quando aquilo que deveria contribuir para nossa sobrevivência, autonomia, realização e dignidade passa a produzir sofrimento? Essas perguntas ganham ainda mais importância diante das transformações pelas quais o mundo do trabalho vem passando. A intensificação das atividades, a cobrança permanente por resultados, a expansão das tecnologias digitais, a hiperconectividade, a competição, a...

Organizações inteligentes dependem de escuta ativa

 Participei certa vez de uma reunião que durou quase duas horas. No fim dela, todos saíram com a estranha sensação de que absolutamente ninguém havia sido ouvido de verdade. O mais curioso é que todo mundo falou bastante. Havia opiniões. Sugestões. Discordâncias. Slides. Expressões como “sinergia operacional” e “alinhamento estratégico” — que geralmente aparecem quando ninguém sabe exatamente como resolver o problema, mas deseja parecer intelectualmente comprometido com ele. Em determinado momento, um funcionário tentou explicar uma dificuldade prática enfrentada pela equipe. O gestor ouviu atentamente por aproximadamente quatro segundos antes de interromper: “Entendi. Mas o que precisamos agora é de solução.” Achei aquilo interessante. Porque, às vezes, no ambiente corporativo, “escutar” significa apenas esperar educadamente a própria vez de falar. Existe uma diferença enorme entre ouvir sons e realmente escutar pessoas. E as organizações contemporâneas frequentemente...

O culto à produtividade e a perda da qualidade de vida

 Outro dia encontrei um conhecido numa cafeteria. Perguntei como ele estava. Ele respondeu: “Na correria.” Achei curioso porque, sinceramente, ninguém mais responde apenas “estou bem”. A vida adulta contemporânea parece exigir algum grau mínimo de sofrimento produtivo para validar socialmente a própria existência. Se a pessoa dorme direito, almoça com calma e não demonstra sinais evidentes de exaustão, quase parece irresponsável profissionalmente. Existe uma romantização muito estranha do cansaço no mundo atual. As pessoas falam sobre esgotamento quase com orgulho: “essa semana foi insana.” “não parei um minuto.” “estou sobrevivendo.” E tudo isso normalmente acompanhado de café, olheiras e algum humor autodepreciativo tentando transformar colapso emocional em personalidade carismática. Outro dia ouvi alguém dizer: “Dormir é para os fracos.” A frase veio de um rapaz claramente à beira de um apagão psicológico enquanto tentava responder mensagens do trabalho num sábado...

O mito do funcionário multitask

 Há alguns anos, durante uma entrevista informal de emprego, ouvi um gestor dizer com entusiasmo quase admirável: “Estamos procurando alguém multitarefa.” Na época, sorri educadamente como todo adulto socialmente funcional faz em situações corporativas confusas. Mas, por dentro, pensei: “Interessante… então vocês querem contratar uma pessoa ou um polvo emocionalmente resiliente?” Desde então, passei a observar como o mercado desenvolveu verdadeira obsessão pela ideia de produtividade simultânea. O profissional ideal contemporâneo aparentemente precisa: responder mensagens; participar de reunião; preencher planilhas; resolver problemas; atender clientes; ter criatividade; equilíbrio emocional; proatividade; e, se possível, sorrir enquanto tudo acontece ao mesmo tempo. Existe quase uma fantasia corporativa de que seres humanos funcionam melhor permanentemente divididos em vinte abas mentais simultâneas — como navegadores de internet emocionalmente instáveis. O curioso é que a multita...

A falsa modernidade das empresas “descoladas”

Há algum tempo, visitei uma empresa que fazia questão de parecer moderna. E quando digo “fazia questão”, quero dizer que praticamente tudo ali parecia cuidadosamente planejado para transmitir a sensação de inovação disruptiva de última geração — expressão que, aliás, ninguém sabia exatamente o que significava, mas todos repetiam com impressionante convicção. Logo na entrada havia um puff colorido. Na parede, frases motivacionais em inglês. A copa tinha café gourmet. O escritório possuía videogame. E existia até uma mesa de pingue-pongue estrategicamente posicionada perto da recepção, provavelmente para que qualquer visitante concluísse imediatamente: “uau… aqui as pessoas certamente são felizes.” Confesso que sempre acho curioso quando empresas tentam compensar sofrimento organizacional com decoração industrial e luminária pendente. O mais interessante aconteceu alguns minutos depois. Enquanto aguardava uma reunião, comecei a observar discretamente o ambiente. Apesar de toda ...

A palestra sobre saúde mental que aconteceu no horário do almoço

 Há algum tempo, fui convidado para participar de uma atividade sobre saúde mental numa instituição. O tema era excelente. O cartaz era bonito. As palavras utilizadas eram modernas: “bem-estar emocional”, “qualidade de vida”, “cuidado com as pessoas”, “humanização organizacional”. Tudo parecia muito promissor. Até que descobri um detalhe curioso: a palestra aconteceria no horário do almoço. Sem almoço. Confesso que precisei de alguns segundos para processar a ironia da situação. As pessoas trabalhariam a manhã inteira, abririam mão do próprio intervalo de descanso e assistiriam a uma palestra explicando justamente a importância do equilíbrio emocional no ambiente profissional. O mundo corporativo contemporâneo possui dessas coisas. Às vezes ele produz situações tão contraditórias que parecem escritas por roteiristas especializados em humor constrangedor. O mais curioso é que ninguém parecia achar aquilo estranho. Pelo contrário. Havia um entusiasmo institucional g...