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Trabalhar para viver? Ou viver para trabalhar? Saúde mental no mundo do trabalho e os riscos psicossociais na NR-1

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 Na manhã de hoje, 10/09/2026 , durante a Semana da Administração da Unidade do Grau Técnico Fortaleza Centro , ministrei uma palestra com o título “Trabalhar para viver? Ou viver para trabalhar? — A saúde mental no mundo do trabalho” . A proposta foi provocar uma reflexão sobre uma relação que atravessa praticamente toda a experiência humana contemporânea: a relação entre o indivíduo e o trabalho. Afinal, por que trabalhamos? O que buscamos quando ingressamos em uma atividade profissional? Quanto da nossa identidade está relacionada ao trabalho que desempenhamos? E, principalmente, o que acontece quando aquilo que deveria contribuir para nossa sobrevivência, autonomia, realização e dignidade passa a produzir sofrimento? Essas perguntas ganham ainda mais importância diante das transformações pelas quais o mundo do trabalho vem passando. A intensificação das atividades, a cobrança permanente por resultados, a expansão das tecnologias digitais, a hiperconectividade, a competição, a...

Organizações inteligentes dependem de escuta ativa

 Participei certa vez de uma reunião que durou quase duas horas. No fim dela, todos saíram com a estranha sensação de que absolutamente ninguém havia sido ouvido de verdade. O mais curioso é que todo mundo falou bastante. Havia opiniões. Sugestões. Discordâncias. Slides. Expressões como “sinergia operacional” e “alinhamento estratégico” — que geralmente aparecem quando ninguém sabe exatamente como resolver o problema, mas deseja parecer intelectualmente comprometido com ele. Em determinado momento, um funcionário tentou explicar uma dificuldade prática enfrentada pela equipe. O gestor ouviu atentamente por aproximadamente quatro segundos antes de interromper: “Entendi. Mas o que precisamos agora é de solução.” Achei aquilo interessante. Porque, às vezes, no ambiente corporativo, “escutar” significa apenas esperar educadamente a própria vez de falar. Existe uma diferença enorme entre ouvir sons e realmente escutar pessoas. E as organizações contemporâneas frequentemente...

O culto à produtividade e a perda da qualidade de vida

 Outro dia encontrei um conhecido numa cafeteria. Perguntei como ele estava. Ele respondeu: “Na correria.” Achei curioso porque, sinceramente, ninguém mais responde apenas “estou bem”. A vida adulta contemporânea parece exigir algum grau mínimo de sofrimento produtivo para validar socialmente a própria existência. Se a pessoa dorme direito, almoça com calma e não demonstra sinais evidentes de exaustão, quase parece irresponsável profissionalmente. Existe uma romantização muito estranha do cansaço no mundo atual. As pessoas falam sobre esgotamento quase com orgulho: “essa semana foi insana.” “não parei um minuto.” “estou sobrevivendo.” E tudo isso normalmente acompanhado de café, olheiras e algum humor autodepreciativo tentando transformar colapso emocional em personalidade carismática. Outro dia ouvi alguém dizer: “Dormir é para os fracos.” A frase veio de um rapaz claramente à beira de um apagão psicológico enquanto tentava responder mensagens do trabalho num sábado...

O mito do funcionário multitask

 Há alguns anos, durante uma entrevista informal de emprego, ouvi um gestor dizer com entusiasmo quase admirável: “Estamos procurando alguém multitarefa.” Na época, sorri educadamente como todo adulto socialmente funcional faz em situações corporativas confusas. Mas, por dentro, pensei: “Interessante… então vocês querem contratar uma pessoa ou um polvo emocionalmente resiliente?” Desde então, passei a observar como o mercado desenvolveu verdadeira obsessão pela ideia de produtividade simultânea. O profissional ideal contemporâneo aparentemente precisa: responder mensagens; participar de reunião; preencher planilhas; resolver problemas; atender clientes; ter criatividade; equilíbrio emocional; proatividade; e, se possível, sorrir enquanto tudo acontece ao mesmo tempo. Existe quase uma fantasia corporativa de que seres humanos funcionam melhor permanentemente divididos em vinte abas mentais simultâneas — como navegadores de internet emocionalmente instáveis. O curioso é que a multita...

A falsa modernidade das empresas “descoladas”

Há algum tempo, visitei uma empresa que fazia questão de parecer moderna. E quando digo “fazia questão”, quero dizer que praticamente tudo ali parecia cuidadosamente planejado para transmitir a sensação de inovação disruptiva de última geração — expressão que, aliás, ninguém sabia exatamente o que significava, mas todos repetiam com impressionante convicção. Logo na entrada havia um puff colorido. Na parede, frases motivacionais em inglês. A copa tinha café gourmet. O escritório possuía videogame. E existia até uma mesa de pingue-pongue estrategicamente posicionada perto da recepção, provavelmente para que qualquer visitante concluísse imediatamente: “uau… aqui as pessoas certamente são felizes.” Confesso que sempre acho curioso quando empresas tentam compensar sofrimento organizacional com decoração industrial e luminária pendente. O mais interessante aconteceu alguns minutos depois. Enquanto aguardava uma reunião, comecei a observar discretamente o ambiente. Apesar de toda ...

A palestra sobre saúde mental que aconteceu no horário do almoço

 Há algum tempo, fui convidado para participar de uma atividade sobre saúde mental numa instituição. O tema era excelente. O cartaz era bonito. As palavras utilizadas eram modernas: “bem-estar emocional”, “qualidade de vida”, “cuidado com as pessoas”, “humanização organizacional”. Tudo parecia muito promissor. Até que descobri um detalhe curioso: a palestra aconteceria no horário do almoço. Sem almoço. Confesso que precisei de alguns segundos para processar a ironia da situação. As pessoas trabalhariam a manhã inteira, abririam mão do próprio intervalo de descanso e assistiriam a uma palestra explicando justamente a importância do equilíbrio emocional no ambiente profissional. O mundo corporativo contemporâneo possui dessas coisas. Às vezes ele produz situações tão contraditórias que parecem escritas por roteiristas especializados em humor constrangedor. O mais curioso é que ninguém parecia achar aquilo estranho. Pelo contrário. Havia um entusiasmo institucional g...

A geração Z e os novos conflitos no ambiente corporativo

 Recentemente, ouvi um gestor reclamar da chamada geração Z com um nível de dramaticidade que faria qualquer conflito geracional parecer episódio especial de documentário histórico. Ele dizia: “Essa geração não quer trabalhar.” A frase foi dita enquanto ele tentava descobrir como compartilhar a tela numa reunião online iniciada com vinte minutos de atraso porque ninguém sabia desmutar o microfone. Achei melhor permanecer em silêncio. Existe um esporte muito praticado no mundo corporativo contemporâneo: culpar a geração mais nova por mudanças que o próprio mercado ajudou a produzir. A geração Z tornou-se quase personagem folclórico das empresas. Segundo algumas narrativas corporativas, são jovens: “sem resiliência”, “ansiosos”, “imediatistas”, “difíceis de liderar”, e perigosamente interessados em ter vida pessoal. O que, aparentemente, ainda choca determinados ambientes organizacionais. Confesso que observo esse debate com certo fascínio sociológico. Porque toda gera...