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Organizações inteligentes dependem de escuta ativa

 Participei certa vez de uma reunião que durou quase duas horas. No fim dela, todos saíram com a estranha sensação de que absolutamente ninguém havia sido ouvido de verdade. O mais curioso é que todo mundo falou bastante. Havia opiniões. Sugestões. Discordâncias. Slides. Expressões como “sinergia operacional” e “alinhamento estratégico” — que geralmente aparecem quando ninguém sabe exatamente como resolver o problema, mas deseja parecer intelectualmente comprometido com ele. Em determinado momento, um funcionário tentou explicar uma dificuldade prática enfrentada pela equipe. O gestor ouviu atentamente por aproximadamente quatro segundos antes de interromper: “Entendi. Mas o que precisamos agora é de solução.” Achei aquilo interessante. Porque, às vezes, no ambiente corporativo, “escutar” significa apenas esperar educadamente a própria vez de falar. Existe uma diferença enorme entre ouvir sons e realmente escutar pessoas. E as organizações contemporâneas frequentemente...

O culto à produtividade e a perda da qualidade de vida

 Outro dia encontrei um conhecido numa cafeteria. Perguntei como ele estava. Ele respondeu: “Na correria.” Achei curioso porque, sinceramente, ninguém mais responde apenas “estou bem”. A vida adulta contemporânea parece exigir algum grau mínimo de sofrimento produtivo para validar socialmente a própria existência. Se a pessoa dorme direito, almoça com calma e não demonstra sinais evidentes de exaustão, quase parece irresponsável profissionalmente. Existe uma romantização muito estranha do cansaço no mundo atual. As pessoas falam sobre esgotamento quase com orgulho: “essa semana foi insana.” “não parei um minuto.” “estou sobrevivendo.” E tudo isso normalmente acompanhado de café, olheiras e algum humor autodepreciativo tentando transformar colapso emocional em personalidade carismática. Outro dia ouvi alguém dizer: “Dormir é para os fracos.” A frase veio de um rapaz claramente à beira de um apagão psicológico enquanto tentava responder mensagens do trabalho num sábado...

O mito do funcionário multitask

 Há alguns anos, durante uma entrevista informal de emprego, ouvi um gestor dizer com entusiasmo quase admirável: “Estamos procurando alguém multitarefa.” Na época, sorri educadamente como todo adulto socialmente funcional faz em situações corporativas confusas. Mas, por dentro, pensei: “Interessante… então vocês querem contratar uma pessoa ou um polvo emocionalmente resiliente?” Desde então, passei a observar como o mercado desenvolveu verdadeira obsessão pela ideia de produtividade simultânea. O profissional ideal contemporâneo aparentemente precisa: responder mensagens; participar de reunião; preencher planilhas; resolver problemas; atender clientes; ter criatividade; equilíbrio emocional; proatividade; e, se possível, sorrir enquanto tudo acontece ao mesmo tempo. Existe quase uma fantasia corporativa de que seres humanos funcionam melhor permanentemente divididos em vinte abas mentais simultâneas — como navegadores de internet emocionalmente instáveis. O curioso é que a multita...

A falsa modernidade das empresas “descoladas”

Há algum tempo, visitei uma empresa que fazia questão de parecer moderna. E quando digo “fazia questão”, quero dizer que praticamente tudo ali parecia cuidadosamente planejado para transmitir a sensação de inovação disruptiva de última geração — expressão que, aliás, ninguém sabia exatamente o que significava, mas todos repetiam com impressionante convicção. Logo na entrada havia um puff colorido. Na parede, frases motivacionais em inglês. A copa tinha café gourmet. O escritório possuía videogame. E existia até uma mesa de pingue-pongue estrategicamente posicionada perto da recepção, provavelmente para que qualquer visitante concluísse imediatamente: “uau… aqui as pessoas certamente são felizes.” Confesso que sempre acho curioso quando empresas tentam compensar sofrimento organizacional com decoração industrial e luminária pendente. O mais interessante aconteceu alguns minutos depois. Enquanto aguardava uma reunião, comecei a observar discretamente o ambiente. Apesar de toda ...

A palestra sobre saúde mental que aconteceu no horário do almoço

 Há algum tempo, fui convidado para participar de uma atividade sobre saúde mental numa instituição. O tema era excelente. O cartaz era bonito. As palavras utilizadas eram modernas: “bem-estar emocional”, “qualidade de vida”, “cuidado com as pessoas”, “humanização organizacional”. Tudo parecia muito promissor. Até que descobri um detalhe curioso: a palestra aconteceria no horário do almoço. Sem almoço. Confesso que precisei de alguns segundos para processar a ironia da situação. As pessoas trabalhariam a manhã inteira, abririam mão do próprio intervalo de descanso e assistiriam a uma palestra explicando justamente a importância do equilíbrio emocional no ambiente profissional. O mundo corporativo contemporâneo possui dessas coisas. Às vezes ele produz situações tão contraditórias que parecem escritas por roteiristas especializados em humor constrangedor. O mais curioso é que ninguém parecia achar aquilo estranho. Pelo contrário. Havia um entusiasmo institucional g...

A geração Z e os novos conflitos no ambiente corporativo

 Recentemente, ouvi um gestor reclamar da chamada geração Z com um nível de dramaticidade que faria qualquer conflito geracional parecer episódio especial de documentário histórico. Ele dizia: “Essa geração não quer trabalhar.” A frase foi dita enquanto ele tentava descobrir como compartilhar a tela numa reunião online iniciada com vinte minutos de atraso porque ninguém sabia desmutar o microfone. Achei melhor permanecer em silêncio. Existe um esporte muito praticado no mundo corporativo contemporâneo: culpar a geração mais nova por mudanças que o próprio mercado ajudou a produzir. A geração Z tornou-se quase personagem folclórico das empresas. Segundo algumas narrativas corporativas, são jovens: “sem resiliência”, “ansiosos”, “imediatistas”, “difíceis de liderar”, e perigosamente interessados em ter vida pessoal. O que, aparentemente, ainda choca determinados ambientes organizacionais. Confesso que observo esse debate com certo fascínio sociológico. Porque toda gera...

A Fundacentro: a instituição que o Brasil criou e que poucos conhecem

 Existe uma categoria especial de instituições que eu chamo, sem nenhuma ironia pejorativa, de instituições invisíveis. São aquelas que funcionam, que produzem resultados concretos, que existem há décadas cumprindo um papel que ninguém mais está disposto a cumprir, e que a esmagadora maioria da população jamais ouviu mencionar. A Fundacentro é uma delas. Seu nome completo é Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho. Um nome longo, formal e pouco memorável, o que talvez explique parte do seu anonimato. Mas por trás dessa designação institucional extensa vive uma das experiências mais sérias que o Brasil já tentou no campo da proteção ao trabalhador: a ideia de que segurança do trabalho precisa de ciência. Não apenas de normas, não apenas de fiscalização, mas de pesquisa sistemática, de produção de conhecimento, de gente dedicada a entender como o ambiente de trabalho afeta o corpo e a mente de quem nele passa a maior parte da vida acordada. A Fundacentro n...