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O excesso de reuniões improdutivas e a falsa sensação de produtividade

 Há alguns anos, participei de uma reunião que durou quase três horas. Lembro perfeitamente da sala climatizada, do café morno em copos descartáveis e da quantidade impressionante de pessoas tentando parecer ocupadas. Havia gráficos, apresentações coloridas, palavras sofisticadas em inglês corporativo e uma sequência interminável de opiniões que, no fim das contas, não levaram a lugar algum. Quando a reunião terminou, um dos participantes olhou para mim e disse: “Hoje o dia foi puxado.” Achei curioso. Porque, objetivamente, quase nada havia sido produzido. Naquele dia, comecei a perceber algo que se repetiria muitas vezes ao longo da minha experiência profissional e acadêmica: muitas organizações confundem movimentação com produtividade. Existe uma estética da produtividade nas empresas contemporâneas. Pessoas caminhando apressadas pelos corredores. Agendas lotadas. Notificações incessantes. Chamadas de vídeo sucessivas. Reuniões sobre reuniões. Relatórios que poucos l...

De 1919 a 1991: uma linha do tempo comentada da legislação de acidentes de trabalho no Brasil

 Existe um exercício que gosto de propor quando falo sobre legislação e segurança do trabalho. Peço que a pessoa imagine um mapa. Não um mapa geográfico, mas um mapa de dores. Cada ponto marcado nesse mapa seria um acidente, uma doença, uma morte que aconteceu no ambiente de trabalho e que, a partir dela, forçou o Estado a reagir com alguma norma, algum decreto, alguma lei. O mapa ficaria muito cheio. E isso diria mais sobre a nossa história do que qualquer manual jurídico. A legislação brasileira sobre acidentes de trabalho não foi construída por iluminação súbita de legisladores sensíveis. Foi construída sob pressão. Sob o peso acumulado de corpos que não voltavam para casa inteiros, de famílias que ficavam sem sustento, de trabalhadores que descobriam, da pior maneira possível, que o risco era deles e o lucro era de outro. Percorrer essa linha do tempo não é um exercício acadêmico. É um exercício de memória. E memória, no campo dos direitos, é o único antídoto confiável contra o...

Inteligência emocional nas empresas: necessidade real ou discurso corporativo?

 Poucos conceitos tornaram-se tão populares no universo corporativo contemporâneo quanto a chamada “inteligência emocional”. Empresas falam sobre ela em treinamentos, palestras, processos seletivos, reuniões estratégicas e programas de liderança. O mercado passou a exigir profissionais emocionalmente equilibrados, resilientes, adaptáveis e capazes de lidar adequadamente com pressão, conflitos e mudanças constantes. À primeira vista, parece uma evolução positiva. Durante muito tempo, organizações ignoraram completamente a dimensão emocional do trabalho. O ambiente corporativo tradicional valorizava apenas produtividade, racionalidade e eficiência técnica. Emoções eram vistas quase como obstáculos profissionais. Hoje, ao menos em teoria, reconhece-se que sentimentos influenciam diretamente relações humanas, liderança, comunicação e desempenho organizacional. Mas existe uma questão importante que raramente é discutida com profundidade: As empresas realmente se preocupam com saúd...

Eloy Chaves e o nascimento da Previdência Social no Brasil: quem foi o homem por trás da lei?

 Existe um exercício que gosto de propor quando falo sobre legislação e segurança do trabalho. Peço que a pessoa imagine um mapa. Não um mapa geográfico, mas um mapa de dores. Cada ponto marcado nesse mapa seria um acidente, uma doença, uma morte que aconteceu no ambiente de trabalho e que, a partir dela, forçou o Estado a reagir com alguma norma, algum decreto, alguma lei. O mapa ficaria muito cheio. E isso diria mais sobre a nossa história do que qualquer manual jurídico. A legislação brasileira sobre acidentes de trabalho não foi construída por iluminação súbita de legisladores sensíveis. Foi construída sob pressão. Sob o peso acumulado de corpos que não voltavam para casa inteiros, de famílias que ficavam sem sustento, de trabalhadores que descobriam, da pior maneira possível, que o risco era deles e o lucro era de outro. Percorrer essa linha do tempo não é um exercício acadêmico. É um exercício de memória. E memória, no campo dos direitos, é o único antídoto confiável contra o...

A ilusão da meritocracia nas organizações modernas

Existe uma narrativa extremamente sedutora no mundo contemporâneo: a ideia de que esforço individual é suficiente para garantir reconhecimento, crescimento e sucesso profissional. A meritocracia tornou-se uma das grandes promessas simbólicas das organizações modernas. Segundo essa lógica, quem trabalha mais cresce mais. Quem se dedica mais alcança melhores posições. Quem possui competência inevitavelmente será reconhecido. O sucesso seria apenas consequência natural do mérito individual. À primeira vista, essa ideia parece justa. O problema começa quando observamos a realidade concreta das relações humanas dentro das organizações. Porque o mundo corporativo raramente funciona de maneira tão racional quanto os discursos institucionais fazem parecer. As empresas contemporâneas gostam de apresentar-se como espaços neutros, técnicos e objetivos. Contudo, basta observar atentamente qualquer ambiente organizacional para perceber que fatores subjetivos influenciam profundamente os proce...

Teorias Psicológicas e Estrutura da Personalidade

  1. As Teorias Psicológicas e a Compreensão do Comportamento Humano A Psicologia, enquanto ciência, desenvolveu ao longo do tempo diferentes teorias com o objetivo de compreender o comportamento humano, cada uma enfatizando aspectos distintos da experiência psíquica. Essas teorias não são excludentes, mas complementares, oferecendo múltiplas perspectivas para a análise do indivíduo. No contexto da enfermagem, o conhecimento dessas abordagens permite ao profissional interpretar o comportamento do paciente de forma mais ampla, evitando reducionismos e ampliando a capacidade de intervenção humanizada. As principais correntes que se destacam nesse campo são o Behaviorismo, a Gestalt e a Psicanálise, cada uma com contribuições específicas para a compreensão da mente e do comportamento.   2. Behaviorismo: o comportamento como objeto de estudo O Behaviorismo, desenvolvido por John B. Watson, propõe que a Psicologia deve se concentrar no estudo do comportamento observável, re...

Teorias Éticas e Ética Profissional

  1. Introdução: por que estudar teorias éticas? A ética, enquanto reflexão filosófica, desenvolveu-se ao longo da história por meio de diferentes correntes teóricas que buscaram responder a uma questão central: o que torna uma ação moralmente correta? Essas teorias não são meramente abstratas; elas fornecem critérios para analisar dilemas reais, especialmente no contexto profissional, onde decisões envolvem conflitos de valores, interesses e consequências.   2. Ética na Filosofia Clássica A filosofia grega inaugurou a reflexão sistemática sobre a ética, especialmente no contexto da vida política (pólis). 2.1. Sócrates Sócrates defendia que o conhecimento é condição para a ação correta. Sua máxima “conhece-te a ti mesmo” indica que o autoconhecimento conduz à virtude. Para ele, ninguém pratica o mal voluntariamente; o erro decorre da ignorância. 2.2. Platão Platão relaciona ética e política, afirmando que a justiça no indivíduo está ligada à justiça na socie...