A palestra sobre saúde mental que aconteceu no horário do almoço
Há algum tempo, fui convidado para participar de uma atividade sobre saúde mental numa instituição.
O tema era excelente.
O cartaz era bonito.
As palavras utilizadas eram modernas:
“bem-estar emocional”,
“qualidade de vida”,
“cuidado com as pessoas”,
“humanização organizacional”.
Tudo parecia muito promissor.
Até que descobri um detalhe curioso:
a palestra aconteceria no horário do almoço.
Sem almoço.
Confesso que precisei de alguns segundos para processar a ironia da situação.
As pessoas trabalhariam a manhã inteira, abririam mão do próprio intervalo de descanso e assistiriam a uma palestra explicando justamente a importância do equilíbrio emocional no ambiente profissional.
O mundo corporativo contemporâneo possui dessas coisas.
Às vezes ele produz situações tão contraditórias que parecem escritas por roteiristas especializados em humor constrangedor.
O mais curioso é que ninguém parecia achar aquilo estranho.
Pelo contrário.
Havia um entusiasmo institucional genuíno em torno da iniciativa. Afinal, hoje toda organização precisa demonstrar preocupação com saúde mental. Existe quase uma obrigação estética de parecer emocionalmente responsável.
E isso não acontece apenas nas empresas.
Escolas.
Instituições públicas.
Universidades.
Cursos profissionalizantes.
Todo mundo começou a incorporar discursos sobre acolhimento psicológico, inteligência emocional e qualidade de vida.
O problema é que, muitas vezes, o discurso chega antes da prática.
Lembro que, naquela ocasião, uma pessoa comentou comigo:
“Pelo menos a empresa está tentando.”
E, sinceramente, ela tinha razão.
Talvez estejamos vivendo uma fase curiosa em que as organizações começaram finalmente a perceber que pessoas possuem emoções — descoberta revolucionária depois de apenas alguns séculos tratando trabalhadores como extensões emocionais da impressora multifuncional.
Mas ainda existe enorme dificuldade em transformar essa percepção em mudanças concretas.
Porque cuidar emocionalmente de pessoas exige mais do que palestras motivacionais ocasionais.
Exige rever culturas organizacionais.
Ritmos de trabalho.
Excessos normalizados.
Formas de liderança.
Modelos de cobrança.
E isso costuma ser bem menos confortável do que distribuir folders coloridos sobre saúde mental.
Outro dia conversei com uma amiga que trabalha numa empresa onde frequentemente acontecem campanhas sobre bem-estar emocional. Ela me contou algo tão absurdo que parecia piada.
Segundo ela, o grupo corporativo enviava mensagens motivacionais diariamente às 6h da manhã incentivando hábitos saudáveis e redução do estresse.
Às 23h, o mesmo grupo cobrava atualização de planilhas.
Talvez a grande habilidade do mundo corporativo contemporâneo seja conseguir defender equilíbrio emocional enquanto simultaneamente destrói qualquer possibilidade concreta dele existir.
E digo isso sem cinismo absoluto, porque percebo que muitas organizações realmente estão tentando compreender esse novo cenário. O problema é que ainda carregam velhos vícios administrativos profundamente enraizados.
Querem produtividade máxima e bem-estar pleno ao mesmo tempo.
Alta performance e tranquilidade emocional simultaneamente.
Disponibilidade constante e qualidade de vida.
Em algum momento, essas contas deixam de fechar.
A administração contemporânea valoriza agilidade, flexibilidade e eficiência organizacional. Mas talvez estejamos começando a perceber lentamente que seres humanos não conseguem funcionar indefinidamente em ritmo de urgência permanente.
O corpo cobra.
A mente cobra.
As relações cobram.
E nenhum workshop de inteligência emocional resolve sozinho uma cultura organizacional adoecedora.
Ainda assim, gosto de observar esses movimentos contraditórios do mundo do trabalho contemporâneo. Existe algo profundamente humano nessa tentativa desajeitada das instituições de aprenderem a lidar com emoções depois de décadas operando quase exclusivamente através da lógica da produtividade.
Às vezes erram feio.
Às vezes produzem cenas involuntariamente cômicas.
Às vezes parecem não perceber a própria incoerência.
Mas talvez exista algum progresso escondido nisso tudo.
Porque, anos atrás, saúde mental sequer aparecia na conversa.
Hoje, ao menos, ela já cabe no PowerPoint corporativo.
Mesmo que ainda precise disputar espaço com a planilha de metas do trimestre.
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