O mito do funcionário multitask

 Há alguns anos, durante uma entrevista informal de emprego, ouvi um gestor dizer com entusiasmo quase admirável:

“Estamos procurando alguém multitarefa.”

Na época, sorri educadamente como todo adulto socialmente funcional faz em situações corporativas confusas. Mas, por dentro, pensei:
“Interessante… então vocês querem contratar uma pessoa ou um polvo emocionalmente resiliente?”

Desde então, passei a observar como o mercado desenvolveu verdadeira obsessão pela ideia de produtividade simultânea.

O profissional ideal contemporâneo aparentemente precisa:
responder mensagens;
participar de reunião;
preencher planilhas;
resolver problemas;
atender clientes;
ter criatividade;
equilíbrio emocional;
proatividade;
e, se possível, sorrir enquanto tudo acontece ao mesmo tempo.

Existe quase uma fantasia corporativa de que seres humanos funcionam melhor permanentemente divididos em vinte abas mentais simultâneas — como navegadores de internet emocionalmente instáveis.

O curioso é que a multitarefa costuma ser apresentada como sinal de competência moderna.

Quanto mais sobrecarregada a pessoa parece, mais eficiente ela supostamente é.

Outro dia, observei uma cena quase simbólica numa cafeteria.

Um rapaz participava de uma reunião online enquanto respondia mensagens no celular, mexia no notebook e tentava comer um sanduíche que claramente já havia desistido de existir dignamente.

Em determinado momento, ele pediu desculpas:
“Desculpem, estou fazendo várias coisas ao mesmo tempo.”

E todos pareceram achar aquilo perfeitamente normal.

Talvez estejamos tão acostumados ao excesso de estímulos que já não percebemos mais o quão estranha essa dinâmica se tornou.

Lembro também de uma aluna que trabalhava num setor administrativo e me contou algo que considerei uma definição quase poética do trabalho contemporâneo:
“Professor, às vezes sinto que meu cérebro está com cinquenta notificações abertas.”

Achei a frase brilhante.

Porque a sensação é exatamente essa.

O trabalhador moderno raramente consegue dedicar atenção completa a uma única atividade. O dia é composto por interrupções sucessivas:
um e-mail urgente;
uma mensagem no grupo;
uma ligação inesperada;
uma reunião remarcada;
uma demanda “rapidinha”;
e algum gestor dizendo “é só cinco minutinhos”, frase corporativa historicamente responsável por destruir incontáveis tardes produtivas.

A multitarefa virou estilo de vida.

O problema é que o cérebro humano não foi exatamente projetado para funcionar permanentemente em estado de fragmentação contínua.

A administração contemporânea valoriza agilidade, flexibilidade e produtividade elevada. Mas existe diferença entre eficiência e dispersão crônica.

Muitas vezes, aquilo que as empresas chamam de “multitarefa” é apenas excesso de demandas mal organizadas acontecendo simultaneamente.

E isso produz um tipo específico de cansaço:
o esgotamento por atenção fragmentada.

A pessoa termina o dia com sensação constante de que trabalhou muito e concluiu pouco. Não porque seja incompetente, mas porque passou horas alternando foco entre dezenas de pequenas urgências artificiais.

O mais curioso é que ninguém consegue fazer tudo ao mesmo tempo realmente bem.

No máximo, conseguimos fazer várias coisas simultaneamente de maneira moderadamente caótica.

Mas o mundo corporativo contemporâneo transformou essa desorganização coletiva em virtude profissional.

Existe até certo orgulho nisso.

“Sou multitarefa.”
“Faço mil coisas ao mesmo tempo.”
“Não paro um minuto.”

Às vezes tenho vontade de perguntar:
“E como está sua saúde mental nessa experiência extraordinária de colapso cognitivo contínuo?”

Mas normalmente apenas tomo café e observo silenciosamente o espetáculo organizacional acontecendo.

O excesso de multitarefa também alterou profundamente nossa relação com o tempo. Hoje, parece quase impossível realizar qualquer atividade sem interrupção digital. Até momentos simples ficaram fragmentados.

As pessoas assistem séries olhando o celular.
Almoçam respondendo mensagens.
Participam de reuniões lendo e-mails.
E respondem e-mails enquanto pensam na próxima reunião.

O cérebro nunca repousa completamente.

Talvez por isso tanta gente relate sensação permanente de exaustão mesmo sem executar trabalhos fisicamente pesados.

A fadiga contemporânea muitas vezes é mental.
Atencional.
Emocional.

E talvez a maior ironia disso tudo seja perceber que algumas das experiências mais produtivas da vida costumam acontecer justamente quando conseguimos desacelerar e concentrar atenção verdadeira em uma única coisa.

Uma conversa sem notificações.
Uma leitura tranquila.
Uma tarefa concluída sem interrupções.
Um café tomado sem precisar responder nada.

Pequenos luxos emocionais do século XXI.

Com o tempo, comecei a suspeitar que o verdadeiro profissional eficiente talvez não seja aquele que faz tudo ao mesmo tempo.

Talvez seja aquele que consegue preservar algum foco num mundo corporativo completamente viciado em interrupção.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Adam Smith: Quem Foi, Principais Ideias e Contribuições para a Filosofia e Economia

John Locke: Quem Foi, Principais Ideias e Contribuições para a Filosofia Moderna

Sociedade de Consumo: Origens, Características e Implicações Sociológicas