O culto à produtividade e a perda da qualidade de vida
Outro dia encontrei um conhecido numa cafeteria.
Perguntei como ele estava.
Ele respondeu:
“Na correria.”
Achei curioso porque, sinceramente, ninguém mais responde apenas “estou bem”.
A vida adulta contemporânea parece exigir algum grau mínimo de sofrimento produtivo para validar socialmente a própria existência.
Se a pessoa dorme direito, almoça com calma e não demonstra sinais evidentes de exaustão, quase parece irresponsável profissionalmente.
Existe uma romantização muito estranha do cansaço no mundo atual.
As pessoas falam sobre esgotamento quase com orgulho:
“essa semana foi insana.”
“não parei um minuto.”
“estou sobrevivendo.”
E tudo isso normalmente acompanhado de café, olheiras e algum humor autodepreciativo tentando transformar colapso emocional em personalidade carismática.
Outro dia ouvi alguém dizer:
“Dormir é para os fracos.”
A frase veio de um rapaz claramente à beira de um apagão psicológico enquanto tentava responder mensagens do trabalho num sábado à noite.
Talvez o capitalismo contemporâneo tenha conseguido algo impressionante:
transformar autocuidado em sensação de culpa.
Descansar parece desperdício.
Pausar parece atraso.
Desconectar-se parece irresponsabilidade.
A administração contemporânea valoriza produtividade, eficiência e adaptação constante. O problema é que, em muitos ambientes organizacionais, produtividade deixou de ser ferramenta administrativa e passou a funcionar como valor moral.
A pessoa não precisa apenas produzir.
Ela precisa parecer produtiva o tempo inteiro.
E isso muda completamente a relação subjetiva com o trabalho.
Lembro de uma conversa com uma aluna que trabalhava numa empresa onde existia quase uma competição informal sobre quem dormia menos.
Os funcionários diziam frases como:
“Saí daqui meia-noite.”
“Fiquei até mais tarde terminando relatório.”
“Trabalhei no domingo.”
Tudo isso era narrado com o mesmo entusiasmo de atletas olímpicos descrevendo recordes pessoais.
Ela me disse:
“Professor, às vezes parece que descansar virou vergonha.”
Achei a frase tristemente precisa.
Porque o mundo corporativo contemporâneo criou uma estética da hiperocupação. Estar cansado virou sinal de importância. Agenda lotada virou símbolo de relevância profissional.
O sujeito moderno vive permanentemente ocupado tentando justificar a própria utilidade.
E nem sempre percebe o preço emocional disso.
Outro dia entrei numa livraria e encontrei uma prateleira inteira dedicada à produtividade. Havia livros ensinando:
como acordar mais cedo;
como trabalhar mais;
como otimizar tempo;
como produzir melhor;
como transformar hábitos;
como desbloquear alta performance.
Curiosamente, quase nenhum ensinava simplesmente:
como descansar sem culpa.
Talvez porque isso não combine muito com a lógica contemporânea de desempenho permanente.
A sensação que tenho às vezes é que muita gente já não sabe mais existir fora da lógica da produtividade. O indivíduo começa a medir o próprio valor pela quantidade de tarefas concluídas.
Até hobbies viraram metas.
As pessoas não leem mais apenas por prazer.
Agora precisam:
“otimizar conhecimento”,
“desenvolver repertório”,
“potencializar aprendizado”.
Nem o lazer escapou da lógica corporativa.
Outro dia vi alguém transformar caminhada no parque em “momento estratégico de autocuidado voltado para aumento de performance cognitiva”.
O ser humano contemporâneo não consegue mais simplesmente caminhar.
Tudo virou projeto de melhoria contínua.
Existe algo cansativo nisso tudo.
E talvez o mais irônico seja perceber que muitos dos momentos mais importantes da vida acontecem justamente quando não estamos produzindo nada mensurável.
Uma conversa longa.
Uma tarde silenciosa.
Um almoço sem pressa.
Uma risada inesperada.
Um domingo sem notificações.
Pequenas experiências humanas que dificilmente cabem em planilhas de desempenho.
Claro, trabalhar importa.
Projetos importam.
Responsabilidades existem.
Não se trata de demonizar produtividade.
O problema começa quando a vida inteira passa a funcionar exclusivamente em torno dela.
Porque seres humanos não foram feitos apenas para produzir.
Também precisam contemplar.
Descansar.
Viver relações afetivas.
Ficar em silêncio às vezes.
Perder tempo honestamente.
E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis no século XXI:
aprender a desacelerar sem sentir que estamos fracassando.
Com o tempo, comecei a admirar profundamente pessoas que conseguem preservar algum senso de humanidade num mundo completamente apaixonado pela própria pressa.
Hoje isso parece quase um ato de resistência emocional.
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