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A síndrome do líder salvador nas organizações

 Toda empresa possui pelo menos uma pessoa que acredita sinceramente ser a única responsável por impedir o colapso completo da instituição. Às vezes é um gestor. Às vezes um coordenador. Às vezes alguém que apenas respondeu dois e-mails com rapidez em 2017 e nunca mais conseguiu se libertar da própria reputação de “resolvedor oficial de problemas”. Conheci um sujeito assim certa vez. Ele chegava cedo. Saía tarde. Resolvia conflitos. Respondia mensagens de madrugada. Participava de todas as reuniões. Interferia em todos os setores. E falava constantemente frases como: “Se eu parar, isso aqui desmorona.” Na época, achei aquilo apenas dedicação profissional exagerada. Hoje percebo que talvez fosse uma mistura complexa de ansiedade, necessidade de controle e uma certa vaidade emocional disfarçada de responsabilidade institucional. Existe um tipo muito específico de liderança contemporânea que precisa sentir-se indispensável o tempo inteiro. O líder salvador não apenas t...

O impacto do clima organizacional na produtividade das equipe

Toda empresa possui um clima. E não estou falando do ar-condicionado quebrado do setor financeiro — embora, em muitos lugares, ele também influencie diretamente a estabilidade emocional coletiva. Falo daquele ambiente invisível que se forma entre as pessoas. A maneira como se cumprimentam. O tom das conversas. Os silêncios. As piadas. Os olhares durante reuniões. A tensão no corredor depois que determinado gestor chega. O clima organizacional raramente aparece nos relatórios, mas costuma ser percebido nos primeiros dez minutos dentro de qualquer empresa. Outro dia entrei numa instituição para resolver uma questão administrativa simples. Assim que atravessei a recepção, senti imediatamente aquela atmosfera estranha de lugares onde ninguém parece emocionalmente confortável. As pessoas falavam baixo. Os sorrisos pareciam burocráticos. Havia uma cordialidade excessivamente rígida no ar. Uma funcionária perguntou à outra: “Tudo bem?” A outra respondeu: “Tudo.” Mas aquele “...

Por que o McDonald’s mudou tanto? Quando o restaurante da nossa infância virou uma interface digital

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Há imagens que parecem retratar apenas a passagem do tempo, mas que, quando observadas com atenção, contam uma história inteira sobre a sociedade. A comparação entre um McDonald’s de 1987, outro de 1997, um restaurante de 2007 e a unidade contemporânea de 2026 é uma dessas imagens. Em pouco mais de três décadas, o cenário mudou radicalmente. As cores vibrantes deram lugar a ambientes mais sóbrios. Os grandes playgrounds desapareceram de muitas unidades. Ronald McDonald deixou de ocupar o protagonismo visual que tinha no passado. Os brinquedos e personagens perderam espaço. Os tradicionais balcões passaram a dividir sua função com totens de autoatendimento. As telas substituíram parte dos cardápios. O aplicativo passou a fazer parte da experiência. E o restaurante, que antes era um destino, tornou-se apenas uma das possibilidades dentro de uma jornada de consumo que começa muitas vezes no celular. Mas por que o McDonald’s mudou tanto? A resposta mais interessante talvez seja bastante...

O papel da comunicação na redução de conflitos organizacionais

 Toda empresa possui pelo menos um grupo de WhatsApp capaz de destruir lentamente a estabilidade emocional de qualquer ser humano. Isso já deveria aparecer em algum manual contemporâneo de administração. Outro dia, um amigo me mostrou mensagens do grupo corporativo da empresa onde trabalha. Eram 22h47 de um domingo e alguém discutia urgentemente a cor de uma planilha que seria apresentada numa reunião na terça-feira. O detalhe mais impressionante não era a discussão. Era o fato de que sete pessoas respondiam aquilo com seriedade absoluta naquele horário. Existe algo profundamente curioso na comunicação organizacional contemporânea: nunca tivemos tantos canais de contato e, ainda assim, tanta dificuldade de comunicação real. As empresas possuem: e-mail; WhatsApp; Teams; Zoom; Meet; Slack; sistemas internos; grupos paralelos; grupos secretos dos grupos oficiais; e provavelmente algum gestor enviando áudio de três minutos dizendo: “É rapidinho.” Quase nunca é rapidin...

Trabalhar para viver? Ou viver para trabalhar? Saúde mental no mundo do trabalho e os riscos psicossociais na NR-1

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 Na manhã de hoje, 10/09/2026 , durante a Semana da Administração da Unidade do Grau Técnico Fortaleza Centro , ministrei uma palestra com o título “Trabalhar para viver? Ou viver para trabalhar? — A saúde mental no mundo do trabalho” . A proposta foi provocar uma reflexão sobre uma relação que atravessa praticamente toda a experiência humana contemporânea: a relação entre o indivíduo e o trabalho. Afinal, por que trabalhamos? O que buscamos quando ingressamos em uma atividade profissional? Quanto da nossa identidade está relacionada ao trabalho que desempenhamos? E, principalmente, o que acontece quando aquilo que deveria contribuir para nossa sobrevivência, autonomia, realização e dignidade passa a produzir sofrimento? Essas perguntas ganham ainda mais importância diante das transformações pelas quais o mundo do trabalho vem passando. A intensificação das atividades, a cobrança permanente por resultados, a expansão das tecnologias digitais, a hiperconectividade, a competição, a...

Organizações inteligentes dependem de escuta ativa

 Participei certa vez de uma reunião que durou quase duas horas. No fim dela, todos saíram com a estranha sensação de que absolutamente ninguém havia sido ouvido de verdade. O mais curioso é que todo mundo falou bastante. Havia opiniões. Sugestões. Discordâncias. Slides. Expressões como “sinergia operacional” e “alinhamento estratégico” — que geralmente aparecem quando ninguém sabe exatamente como resolver o problema, mas deseja parecer intelectualmente comprometido com ele. Em determinado momento, um funcionário tentou explicar uma dificuldade prática enfrentada pela equipe. O gestor ouviu atentamente por aproximadamente quatro segundos antes de interromper: “Entendi. Mas o que precisamos agora é de solução.” Achei aquilo interessante. Porque, às vezes, no ambiente corporativo, “escutar” significa apenas esperar educadamente a própria vez de falar. Existe uma diferença enorme entre ouvir sons e realmente escutar pessoas. E as organizações contemporâneas frequentemente...

O culto à produtividade e a perda da qualidade de vida

 Outro dia encontrei um conhecido numa cafeteria. Perguntei como ele estava. Ele respondeu: “Na correria.” Achei curioso porque, sinceramente, ninguém mais responde apenas “estou bem”. A vida adulta contemporânea parece exigir algum grau mínimo de sofrimento produtivo para validar socialmente a própria existência. Se a pessoa dorme direito, almoça com calma e não demonstra sinais evidentes de exaustão, quase parece irresponsável profissionalmente. Existe uma romantização muito estranha do cansaço no mundo atual. As pessoas falam sobre esgotamento quase com orgulho: “essa semana foi insana.” “não parei um minuto.” “estou sobrevivendo.” E tudo isso normalmente acompanhado de café, olheiras e algum humor autodepreciativo tentando transformar colapso emocional em personalidade carismática. Outro dia ouvi alguém dizer: “Dormir é para os fracos.” A frase veio de um rapaz claramente à beira de um apagão psicológico enquanto tentava responder mensagens do trabalho num sábado...